Passaporte para as salas do mundo
Bolívar Torres
Jornal do Brasil - Caderno B
30/01/2010
TIRADENTES, MG Brasil esteve em evidência em 2009. Os anúncios de que organizaria a Copa do Mundo e as Olimpíadas, além de uma visibilidade cada vez maior na política externa, fizeram do país um nome certo na mídia mundial.
Mas será que esta presença se refletiu em interesse no nosso cinema? A questão esteve em pauta na 13º Mostra de Cinema de Tiradentes, que se encerra hoje.
Presentes ao longo do festival, os franceses Fabien Gaffez, membro da comissão de seleção da Semana da Crítica do Festival de Cannes, e Sylvie Debs, curadora do Festival Rencontres Cinémas d’Amérique Latine de Toulouse; e a brasileira Rachel Monteiro, consultora internacional do Programa Cinema do Brasil, deram suas impressões sobre as dificuldades em distribuir nossos filmes lá fora.
– Estamos evoluindo na tentativa de criar uma marca do cinema brasileiro – explica Rachel, cuja organização faz uma espécie ponte entre as obras nacionais e os distribuidores estrangeiros.
– A grande queixa antes da nossa consultoria começar seu trabalho era de que não havia uma interlocução. Estamos atuando para fazer uma aproximação e criar condições de que os cineastas possam mostrar seu trabalho.
Apesar do otimismo de Rachel, os números ainda são modestos.
Para se ter uma ideia, apenas 5% da nossa produção chega aos cinemas europeus. Os longas recentes com mais sucesso por lá, Cidade de Deus e Cidade dos homens, não fizeram mais do que 150 mil ingressos na França e Espanha. Podem ser consideradas bilheterias altas se comparadas com as do Brasil (no caso de Cidade dos homens, ela é maior do que a arrecadação interna), mas são baixas para os padrões europeus.
Qual seria, portanto, os obstáculos para a conquista do mercado internacional? Falando sobre seu país, Sylvie ressalta as boas relações entre brasileiros e franceses, mas lamenta a falta de nomes facilmente reconhecíveis fora do país, tanto cineastas quanto atores, que possam servir como “embaixadores” do nosso cinema.
– Quem é o Gabriel Garcia Bernal do Brasil? – indaga. – Infelizmente, os espectadores internacionais se interessam pelos filmes através de profissionais que conhecem. Mas há também casos como o de Walter Salles.
Ajuda o fato de ele falar fluentemente francês e poder divulgar seus filmes sem intermediários.
Os convidados internacionais foram indagados sobre a questão do “exotismo” – motivo de queixa entre alguns críticos e cineastas brasileiros, que apontaram o olhar estereotipado do público estrangeiro em relação à nossa cultura. Seu desejo por filmes de sabor internacional, que explorem os clichês do país, limitaria a margem de distribuição.
– É preciso ver que o exotismo funciona nas duas direções – argumenta Sylvie. – É verdade de os estrangeiros veem o Brasil através de muitos clichês, mas acontece o mesmo da parte dos brasileiros. Algumas associam a França apenas à gastronomia, nos perfumes, na moda...
Trazido pela organização para ver os filmes do festival e ser apresentado a um tipo de cinema brasileiro que dificilmente chega lá fora, o francês Fabien Gaffez, crítico da revista Positif, diz que seu olhar sobre a produção nacional mudou depois do que assistiu por aqui. Em um único dia, ele pode ver um documentário sobre um ermitão que vivenuma caverna isolada no interior de Minas Gerais (A alma do osso, de Cão Guimarães), outro sobre a alienação da alta sociedade brasileira (Um lugar ao sol, de Gabriel Mascaro), além de curtas sobre gays que frequentam bailes em São Paulo (Bailão, de Marcelo Caetano), sobre o tecnobrega nordestino (Faço de mim o que quero, de Sergio Oliveira e sobre a opressão urbana em Porto Alegre (Quarto de espera, de Bruno Carboni e Davi Pretto).
– A questão do exotismo é complexa, na medida que eu mesmo trago sem querer este preconceito – diz Gaffez. – Mas não vim aqui procurando “um cinema brasileiro” e sim bons filmes.
E os encontrei. E, se os filmes são bons, eles vão aparecer.
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Jornal do Brasil - Caderno B
30/01/2010
TIRADENTES, MG Brasil esteve em evidência em 2009. Os anúncios de que organizaria a Copa do Mundo e as Olimpíadas, além de uma visibilidade cada vez maior na política externa, fizeram do país um nome certo na mídia mundial.
Mas será que esta presença se refletiu em interesse no nosso cinema? A questão esteve em pauta na 13º Mostra de Cinema de Tiradentes, que se encerra hoje.
Presentes ao longo do festival, os franceses Fabien Gaffez, membro da comissão de seleção da Semana da Crítica do Festival de Cannes, e Sylvie Debs, curadora do Festival Rencontres Cinémas d’Amérique Latine de Toulouse; e a brasileira Rachel Monteiro, consultora internacional do Programa Cinema do Brasil, deram suas impressões sobre as dificuldades em distribuir nossos filmes lá fora.
– Estamos evoluindo na tentativa de criar uma marca do cinema brasileiro – explica Rachel, cuja organização faz uma espécie ponte entre as obras nacionais e os distribuidores estrangeiros.
– A grande queixa antes da nossa consultoria começar seu trabalho era de que não havia uma interlocução. Estamos atuando para fazer uma aproximação e criar condições de que os cineastas possam mostrar seu trabalho.
Apesar do otimismo de Rachel, os números ainda são modestos.
Para se ter uma ideia, apenas 5% da nossa produção chega aos cinemas europeus. Os longas recentes com mais sucesso por lá, Cidade de Deus e Cidade dos homens, não fizeram mais do que 150 mil ingressos na França e Espanha. Podem ser consideradas bilheterias altas se comparadas com as do Brasil (no caso de Cidade dos homens, ela é maior do que a arrecadação interna), mas são baixas para os padrões europeus.
Qual seria, portanto, os obstáculos para a conquista do mercado internacional? Falando sobre seu país, Sylvie ressalta as boas relações entre brasileiros e franceses, mas lamenta a falta de nomes facilmente reconhecíveis fora do país, tanto cineastas quanto atores, que possam servir como “embaixadores” do nosso cinema.
– Quem é o Gabriel Garcia Bernal do Brasil? – indaga. – Infelizmente, os espectadores internacionais se interessam pelos filmes através de profissionais que conhecem. Mas há também casos como o de Walter Salles.
Ajuda o fato de ele falar fluentemente francês e poder divulgar seus filmes sem intermediários.
Os convidados internacionais foram indagados sobre a questão do “exotismo” – motivo de queixa entre alguns críticos e cineastas brasileiros, que apontaram o olhar estereotipado do público estrangeiro em relação à nossa cultura. Seu desejo por filmes de sabor internacional, que explorem os clichês do país, limitaria a margem de distribuição.
– É preciso ver que o exotismo funciona nas duas direções – argumenta Sylvie. – É verdade de os estrangeiros veem o Brasil através de muitos clichês, mas acontece o mesmo da parte dos brasileiros. Algumas associam a França apenas à gastronomia, nos perfumes, na moda...
Trazido pela organização para ver os filmes do festival e ser apresentado a um tipo de cinema brasileiro que dificilmente chega lá fora, o francês Fabien Gaffez, crítico da revista Positif, diz que seu olhar sobre a produção nacional mudou depois do que assistiu por aqui. Em um único dia, ele pode ver um documentário sobre um ermitão que vivenuma caverna isolada no interior de Minas Gerais (A alma do osso, de Cão Guimarães), outro sobre a alienação da alta sociedade brasileira (Um lugar ao sol, de Gabriel Mascaro), além de curtas sobre gays que frequentam bailes em São Paulo (Bailão, de Marcelo Caetano), sobre o tecnobrega nordestino (Faço de mim o que quero, de Sergio Oliveira e sobre a opressão urbana em Porto Alegre (Quarto de espera, de Bruno Carboni e Davi Pretto).
– A questão do exotismo é complexa, na medida que eu mesmo trago sem querer este preconceito – diz Gaffez. – Mas não vim aqui procurando “um cinema brasileiro” e sim bons filmes.
E os encontrei. E, se os filmes são bons, eles vão aparecer.