Crítico elogia documentários do País
Luiz Carlos Merten
O Estado de S. Paulo
Caderno 2
28/1/2010
Fabien Gaffez não é diretor nem ator de cinema, mas é um dos mais importantes convidados da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que começou sexta com homenagem a Karim Aïnouz. Desde segunda, o evento na cidade histórica de Minas abriga a Mostra Aurora, integrada por filmes inéditos e de um perfil particular. São obras de novos diretores até o terceiro filme, feitas sem incentivo oficial. Um cinema muitas vezes radical, de experimentação. Trazido pelo Programa Cinema do Brasil, Fabien Gaffez está no País como olheiro de um dos maiores festivais do mundo. Aos 33 anos, ele participa pela primeira vez da comissão de seleção da Semana da Crítica de Cannes.
Gaffez participou ontem de debate sobre a forma como o cinema brasileiro é visto na Europa. Ele não se sente qualificado para falar em profundidade sobre cinema brasileiro, muito menos para ditar regras, como fez, desastradamente, o ex-editor chefe de Cahiers du Cinéma, quando participou da Mostra, em outubro, mas destaca a importância da produção documentária atual do País.
Gaffez tem a humildade de se colocar como um iniciante, embora tenha formação em filosofia, seja colaborador da revista rival de Cahiers na França, Positif, e já tenha experiência como programador do Festival de Amiens, cidade em que nasceu (e vive). Amiens tem celebrado o cinema latino-americano e o brasileiro, ao longo do tempo. Este ano, o festival comemora 30 anos e Gaffez confirma que o foco estará no cinema do Brasil, por meio de uma homenagem - a segunda - que Amiens fará a Carlos Reichenbach.
O crítico e selecionador deixa hoje o Brasil e ruma para a Suécia, onde participará de feira do cinema nórdico, garimpando filmes para a Semana da Crítica de 2010. "A seleção da Semana é rigorosa. Assistimos a centenas de filmes e lá pelo fim de março chegamos a uns 30 títulos. Um mês antes do início do festival, fazemos a seleção final, de apenas sete filmes." São obras de novos diretores até o segundo filme, o que significa que, em teoria, os filmes de Tiradentes estão habilitados a passar em Cannes. Só que apenas isso não define um critério. Outra seção importante de Cannes, a Quinzena dos Realizadores, tem um recorte mais formalista na seleção dos filmes. "A Semana não descuida da inovação de linguagem, mas é a humanidade que nos interessa."
Depois de assistir a vários filmes e ser assediado por novos diretores que lhe deram os DVDs que ele leva para a Europa, Gaffez antecipa que se interessou particularmente por dois filmes - "Terras", de Maya Da-Rin, que integra a Mostra Aurora, e "Morro do Céu", de Gustavo Spolidoro, fora de concurso.
O filme de Maya - filha de dois cineastas, Sandra Werneck e Sílvio Da-Rin - passa-se na região amazônica e questiona a fronteira como espaço geográfico mas também interno das pessoas. Fronteira e identidade viram temas próximos. Morro do Céu cria outra fronteira. Filmado na mesma região do Rio Grande do Sul em que foi rodado o longa de ficção "Os Famosos e os Duendes da Morte", o documentário de Spolidoro trata de adolescentes (como o trabalho de Esmir Filho). A adolescência como fronteira - ou passagem - da infância à idade adulta, os choques culturais (os personagens falam um português italianado que praticamente exige legendas), o sonho de partir, tudo propicia um diálogo muito rico entre os filmes de Maya e Spolidoro (e entre o deste último e o de Esmir Filho, que Gaffez ainda não havia visto, mas ficou curioso).
A morte de Eric Rohmer foi comentada pelo cineasta. Ele acredita que as manifestações de pesar pela recente morte do autor foram hipócritas. "Na verdade, as pessoas não gostavam tanto assim do cinema autoral de Rohmer." Ele próprio admira muita coisa que o diretor fez, mas não tudo. Dos grandes autores da geração nouvelle vague, sua admiração não vai para Jean-Luc Godard, que completa 80 anos em 2010. "Quando ele morrer, teremos as mesmas manifestações exageradas, e insinceras, em relação a Rohmer." Seu favorito é Alain Resnais. Inclusive Ervas Daninhas? "Claro, o filme é muito bom." Mas Medos Privados em Lugares Públicos é melhor, ele concorda? "Sem dúvida."
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O Estado de S. Paulo
Caderno 2
28/1/2010
Fabien Gaffez não é diretor nem ator de cinema, mas é um dos mais importantes convidados da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que começou sexta com homenagem a Karim Aïnouz. Desde segunda, o evento na cidade histórica de Minas abriga a Mostra Aurora, integrada por filmes inéditos e de um perfil particular. São obras de novos diretores até o terceiro filme, feitas sem incentivo oficial. Um cinema muitas vezes radical, de experimentação. Trazido pelo Programa Cinema do Brasil, Fabien Gaffez está no País como olheiro de um dos maiores festivais do mundo. Aos 33 anos, ele participa pela primeira vez da comissão de seleção da Semana da Crítica de Cannes.
Gaffez participou ontem de debate sobre a forma como o cinema brasileiro é visto na Europa. Ele não se sente qualificado para falar em profundidade sobre cinema brasileiro, muito menos para ditar regras, como fez, desastradamente, o ex-editor chefe de Cahiers du Cinéma, quando participou da Mostra, em outubro, mas destaca a importância da produção documentária atual do País.
Gaffez tem a humildade de se colocar como um iniciante, embora tenha formação em filosofia, seja colaborador da revista rival de Cahiers na França, Positif, e já tenha experiência como programador do Festival de Amiens, cidade em que nasceu (e vive). Amiens tem celebrado o cinema latino-americano e o brasileiro, ao longo do tempo. Este ano, o festival comemora 30 anos e Gaffez confirma que o foco estará no cinema do Brasil, por meio de uma homenagem - a segunda - que Amiens fará a Carlos Reichenbach.
O crítico e selecionador deixa hoje o Brasil e ruma para a Suécia, onde participará de feira do cinema nórdico, garimpando filmes para a Semana da Crítica de 2010. "A seleção da Semana é rigorosa. Assistimos a centenas de filmes e lá pelo fim de março chegamos a uns 30 títulos. Um mês antes do início do festival, fazemos a seleção final, de apenas sete filmes." São obras de novos diretores até o segundo filme, o que significa que, em teoria, os filmes de Tiradentes estão habilitados a passar em Cannes. Só que apenas isso não define um critério. Outra seção importante de Cannes, a Quinzena dos Realizadores, tem um recorte mais formalista na seleção dos filmes. "A Semana não descuida da inovação de linguagem, mas é a humanidade que nos interessa."
Depois de assistir a vários filmes e ser assediado por novos diretores que lhe deram os DVDs que ele leva para a Europa, Gaffez antecipa que se interessou particularmente por dois filmes - "Terras", de Maya Da-Rin, que integra a Mostra Aurora, e "Morro do Céu", de Gustavo Spolidoro, fora de concurso.
O filme de Maya - filha de dois cineastas, Sandra Werneck e Sílvio Da-Rin - passa-se na região amazônica e questiona a fronteira como espaço geográfico mas também interno das pessoas. Fronteira e identidade viram temas próximos. Morro do Céu cria outra fronteira. Filmado na mesma região do Rio Grande do Sul em que foi rodado o longa de ficção "Os Famosos e os Duendes da Morte", o documentário de Spolidoro trata de adolescentes (como o trabalho de Esmir Filho). A adolescência como fronteira - ou passagem - da infância à idade adulta, os choques culturais (os personagens falam um português italianado que praticamente exige legendas), o sonho de partir, tudo propicia um diálogo muito rico entre os filmes de Maya e Spolidoro (e entre o deste último e o de Esmir Filho, que Gaffez ainda não havia visto, mas ficou curioso).
A morte de Eric Rohmer foi comentada pelo cineasta. Ele acredita que as manifestações de pesar pela recente morte do autor foram hipócritas. "Na verdade, as pessoas não gostavam tanto assim do cinema autoral de Rohmer." Ele próprio admira muita coisa que o diretor fez, mas não tudo. Dos grandes autores da geração nouvelle vague, sua admiração não vai para Jean-Luc Godard, que completa 80 anos em 2010. "Quando ele morrer, teremos as mesmas manifestações exageradas, e insinceras, em relação a Rohmer." Seu favorito é Alain Resnais. Inclusive Ervas Daninhas? "Claro, o filme é muito bom." Mas Medos Privados em Lugares Públicos é melhor, ele concorda? "Sem dúvida."